quarta-feira, 17 de junho de 2009

É pra rir ou chorar?

HUMOR MIDIÁTICO
Não existe uma definição concreta a respeito do que pode vir a ser humor, ele é variável e subjetivo. Uma piada pode ser motivo de gargalhadas para determinado indivíduo e indiferente para os demais, dependerá de fatores sócio-culturais peculiares ao espectador.
O humor é filho da surpresa, na medida em que consegue estabelecer uma associação com todo comportamento, imagem ou fator capaz de representar uma ação diferente daquilo que se previa. Não costumamos rir de daquilo que é natural, mas sim de situações estranhas a nossa ótica.
A utopia está presente em determinadas formas de humor, capazes de mostrar como o mundo deveria ser. A representação de uma sociedade harmônica, igualitária e feliz é representada “ocultamente” em um humor inteligente, capaz de mostrar o que não deveríamos fazer para melhorar o meio em que vivemos, o riso é provocado pelo contraste e por isso deve ser utilizado para o bem de todos.
O riso é uma estratégia de comunicação, porque nos coloca na mesma situação, seres comuns em busca do outro. Nunca rimos a sós, indiretamente alguém exerce influência, mesmo que no subconsciente. O riso é unificador, coletivo, contagiante. Mas pode ser perigoso quando se torna preconceituoso e contribui com a desigualdade social.
Caracteriza-se como ciência a partir do momento em que buscamos evoluir e melhorar as condições vigentes, criticando o presente para não persistir com os erros no futuro. Entretanto, desta forma pode-se construir um sonho utópico. Almejamos acertar sempre para não sermos ridicularizados novamente e quando não conseguimos mudar nos deparamos com uma crise existencial, deixamos de buscar aquilo que queremos.
O humor como experiência estética, possui um gosto pessoal, onde há um descompromisso com verdades postas e impostas. O sujeito cria naturalmente seu próprio estilo independente do juízo de valor imposto pela sociedade, apesar de haver uma grande interferência midiática no convívio social, onde os cidadãos devem rir de determinadas imagem e sons que são impostos para alienar e favorecer um mercado lucrativo que se mostra oculto para grande maioria das pessoas que não sabem discernir humor e manipulação. Neste circo da vida real, sobrevivem os críticos que sabem conciliar diversão com consciência.
Paradoxalmente o riso torna o homem imune a certos preceitos, ele esquece certos medos e temores driblando o morte. Para não se preocupar com a morte, brinca-se com ela. O humor em determinado momento nos liberta das tensões impostas pela moral coletiva. Entretanto, os problemas que são momentaneamente esquecidos no momento das gargalhadas, pode surgir mais tarde com maior intensidade. Depois que o sujeito se depara com a realidade, depois que o riso perde a graça. Woody Allen, humorista norte americano, zombou da morte de forma bem humorada. “E se houver vida após a morte... mas ninguém souber onde fica?”. Assim, ele misturou questões cruciais que nos afligem, numa quebra constante de expectativas.
No meio televisivo, o humor é construído de maneira alienadora, o observador representa a superioridade. No conforto seu lar, cansado de um exaustivo dia de trabalho ele senta-se na sua poltrona e possui o poder de controlar através do controle remoto aquilo que deseja assistir. Dessa forma ele ri a vontade, até mesmo da infelicidade dos inocentes, e nunca recebe revide. Ele absorve a proposta do programa televisivo de modo passivo; ri da desgraça do negro, da miséria do pobre, de uma simples imperfeição corpórea e mais tarde leva a sério a proposta humorística no seu cotidiano. Favorecendo interesses mercadológicos dos proprietários grades comunicativos que acumulam lucro renovando tendências de beleza, comportamento e bens de consumo. Exemplo: Um carro velho, um nariz mais alongado, uma roupa fora de moda transformam-se em piada.
Segundo Kant, o riso é uma experiência frustrada, rimos do oposto que esperamos que aconteça. Enquanto o espectador da gargalhadas, a vítima satirizada que representa a anormalidade perante as normas sociais vigentes é excluída do convívio social. Queremos sempre rir dos outros, pois assim nos sentimos superiores. As grandes comunicativas sempre brincam expondo o rico com superioridade, desrespeitando o pobre que na maioria das vezes é marginalizado ou humilhado. Esta forma de humor prevalece e ganha espaço nos veículos de comunicação, pois os cidadãos são manipulados rindo, absorvem com maior facilidade a proposta alienadora.
O humor deveria driblar a censura repressora, como na década de 1970, quando existia a jovem guarda, a liberação sexual, época em que a ditadura era tratada como o Vietnã pelos humoristas. No filme gravado em 2003: “A taça do mundo é nossa”, a turma do Casseta e Planeta procurou resgatar a identidade perdida atualmente em seu programa televisivo, transmitido pela Rede Globo. A concorrência do CQC (Tv Bandeirantes) que constrói um falso humor perseguindo e ridicularizando políticos corruptos, sem expor uma mensagem política capaz de conscientizar, e do Pânico na Tv (Rede Tv), que brinca de invadir a privacidade de celebridades para mostrar o público que eles também são humanos; contribuiu com o atual quadro humorístico brasileiro, onde predomina o humor grotesco, com linguajar chulo e imagens eróticas.
Defensores dos programas citados afirmam que a sexualidade sempre esteve associada ao humor desde a antiguidade. Funções corporais, como: comer e defecar recebem duplo sentido, tornando-se fator humorístico na imaginação popular. É certo que: o humorista não é o responsável pela atual condição do mundo, mas sim, quando representa as mazelas e permite a reflexão. Mas este tipo de graça é cada vez mais restrito na atualidade.
O riso intelectual exposto numa ironia moralizante e conservadora surgiu na Grécia. Na antiguidade do “berço da democracia” os humoristas foram proibidos de ridicularizar seus representantes políticos, durante um longo tempo encenações de comédias e peças foram suspensas como forma de coibir manifestações contra a politicagem corrupta.
O humor grotesco, com situações absurdas, animalidades e partes baixas do corpo surgiu em Roma, no século I, como contraproposta ao humor grego, inteligente.
Além de divertir, o humorista deve perturbar indo além do superficial, ao perceber e mostrar “aquilo que não é visível”. Ele é o modelo de representação do mundo, mostrando situações e imagens em duas perspectivas, com duplo sentidos. Mas é preciso preservar o caráter e respeitar com as demais pessoas, para não invadir a privacidade ou degradar a imagem do indivíduo e esta é a forma que tem sido mais explorada pelo programas na TV, em especial o Pânico na Tv.
O humor grotesco proliferado atualmente representa a falência de um projeto político, onde o telespectador apenas: senta, assiste e espera. Com um riso amarelo e passivo os brasileiros são influenciados, não há possibilidade de construção, semelhante ao riso grego. O humor televisivo deveria mostrar a incoerência da sociedade diante da lógica do pensamento, mas o casamento mídia e humor é mais lucrativo mantendo famílias alienadas assistindo programas que vendem consumismo.
A despolitização do espaço público traz a TV para casa, com a atmosfera da feira ou da praça pública de forma tensa. Só se pode rir sendo espectador, entra-se no meio social usufruindo o sorriso vendido pela mídia. Sorriso este que está inserido na publicidade, nos jornais e transmissões televisivas que mostram heróis em horário nobre, repletos de humor que não deve ser levados a sério.
O riso de desprezo, presente nas grades comunicativas, busca a tudo incluir como forma de promover e renovar o comércio. Na cultura dos meios de comunicação nada precisa ser levado a sério, todo humor é passageiro, bem como o consumismo que é renovado de acordo com os modismos midiáticos. O humor reduzido a banalidade buscar entreter o público para o mesmo consumir mais tarde. O humor precisa ter uma finalidade educativa, capaz de conscientizar as pessoas naquilo que for essencial para construção de um sociedade mais justa e harmônica.

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